Roberto Parentoni
Depois de mais de 35 anos na advocacia criminal, uma convicção se tornou ainda mais clara para mim: conhecimento jurídico é indispensável, mas não basta.
Quem procura um advogado criminalista geralmente não está vivendo um momento comum. Pode existir uma investigação em andamento, uma intimação inesperada, uma acusação, um processo criminal ou apenas a percepção de que algo sério precisa ser compreendido antes de qualquer decisão.
Nesse contexto, a qualidade da defesa não depende somente do domínio das leis. Ela também passa pela capacidade de ouvir, compreender o cenário, explicar os riscos com clareza e construir uma estratégia adequada à realidade de cada caso.
Ao longo da minha trajetória, percebi que algumas qualidades são especialmente importantes na advocacia criminal.
1. Escuta e compreensão
Antes de apresentar respostas, o advogado precisa compreender o que está acontecendo.
Isso exige ouvir com atenção não apenas os fatos, mas também as dúvidas, os receios e as circunstâncias que envolvem a pessoa atendida. Muitas vezes, quem procura orientação ainda não consegue organizar completamente o que viveu ou dimensionar as possíveis consequências da situação.
Uma escuta cuidadosa permite identificar detalhes relevantes, reconstruir acontecimentos e perceber aspectos que podem não aparecer imediatamente nos documentos.
Também é nesse primeiro contato que começa a confiança. O cliente precisa sentir que sua situação foi realmente compreendida antes de receber uma orientação sobre os caminhos possíveis.
2. Conhecimento e atualização
O Direito Penal e o Processo Penal estão em constante transformação.
Novas leis, mudanças na jurisprudência e diferentes interpretações dos tribunais podem modificar a maneira como uma investigação ou um processo deve ser conduzido. Por isso, o advogado criminalista precisa manter uma rotina permanente de estudo e acompanhar atentamente as decisões judiciais.
A experiência acumulada é importante, mas não substitui a atualização.
Uma defesa consistente nasce da combinação entre conhecimento técnico, prática profissional e leitura cuidadosa do entendimento jurídico aplicável a cada situação.
3. Visão estratégica
Nem toda medida juridicamente possível é necessariamente a mais adequada para o caso.
A estratégia exige a análise conjunta dos fatos, das provas, do momento processual, dos riscos e dos possíveis desdobramentos de cada decisão.
Em determinadas situações, agir rapidamente é essencial. Em outras, a melhor escolha pode ser aprofundar a análise antes de tomar qualquer iniciativa.
O trabalho do advogado criminalista envolve antecipar cenários, avaliar consequências e construir um caminho coerente com os objetivos e as circunstâncias do cliente.
Não existe uma defesa verdadeiramente estratégica quando todos os casos são tratados da mesma maneira.
4. Clareza na comunicação
Quem enfrenta uma questão criminal precisa entender o que está acontecendo.
Cabe ao advogado explicar o cenário com clareza, inclusive quando sua avaliação não corresponde à expectativa inicial do cliente. Isso significa apresentar possibilidades, limitações, riscos e consequências sem criar falsas garantias e sem transformar a linguagem jurídica em mais uma fonte de insegurança.
A comunicação também é fundamental perante juízes, promotores, desembargadores, ministros e jurados. Uma tese tecnicamente consistente precisa ser apresentada de forma clara, organizada e persuasiva.
Falar bem, nesse contexto, não significa apenas ter boa oratória. Significa compreender o que precisa ser dito, para quem e no momento adequado.
5. Capacidade de negociação
A advocacia criminal nem sempre se desenvolve apenas por meio do confronto.
Existem situações em que o diálogo técnico pode contribuir para a construção de soluções juridicamente adequadas. Acordos, medidas alternativas e outras possibilidades previstas em lei exigem capacidade de negociação, conhecimento do caso e compreensão dos interesses envolvidos.
Negociar não significa ceder sem critério. Significa reconhecer quando o diálogo pode proteger melhor os interesses do cliente e conduzi-lo com firmeza, prudência e responsabilidade.
6. Ética e sigilo
A relação entre advogado e cliente deve ser construída sobre confiança.
O advogado criminalista tem acesso a informações sensíveis, muitas vezes relacionadas à liberdade, à reputação, à família e à vida profissional de quem o procura. Por isso, discrição, lealdade e sigilo não são detalhes do atendimento. São fundamentos da própria defesa.
A ética também exige independência para orientar o cliente com honestidade, mesmo quando isso significa contrariar uma percepção inicial ou afastar uma solução que parece atraente, mas não é juridicamente segura.
7. Equilíbrio diante da pressão
Investigações e processos criminais envolvem tensão, incerteza e decisões importantes.
O advogado precisa manter equilíbrio para analisar o cenário com objetividade, inclusive nos momentos mais difíceis. Isso não significa agir com frieza diante da preocupação do cliente, mas evitar que a urgência emocional comprometa a qualidade das decisões.
Resiliência, autocontrole e capacidade de adaptação ajudam o profissional a enfrentar obstáculos sem perder a clareza necessária para conduzir a defesa.
Técnica e humanidade fazem parte da mesma defesa
Ao longo dos anos, aprendi que técnica e humanidade não ocupam lugares opostos na advocacia criminal. Uma fortalece a outra.
A defesa começa quando o advogado compreende os fatos, analisa as provas e identifica os caminhos jurídicos possíveis. Mas começa também quando a pessoa percebe que pode falar com segurança, que será ouvida sem julgamentos e que sua situação receberá a atenção necessária.
Talvez seja essa a qualidade que conecta todas as outras: compreender que, antes de existir um processo, existe uma pessoa.
Este texto atualiza e amplia uma reflexão que publiquei originalmente no portal Migalhas, em 2024.
Roberto Parentoni é advogado criminalista | Parentoni Advogados
